Um detalhe é motivante de tudo isso: eu sou cega. Esse é um aspecto
concreto e muito improvável de ser modificado, um dia. Podem encontrar
termos grandiloquentes, imponentes, maquiados, politicamente corretos ou
incorretos, mas nada muda o fato central, o que não é obrigatoriamente
ruim.
Mas note que a questão começa e termina aí. Eu sou cega. Fim. Não há
nada de errado com minhas pernas, com meus ouvidos, e menos ainda com o
meu cérebro. Eu penso muito bem. Podem não ser sempre coisas boas e
certas, mas definitivamente eu consigo raciocinar, concatenar as idéias,
alinhar paradigmas.
Não sou santa. Posso mentir, se quiser. Posso caluniar. Posso fazer
péssimos julgamentos sem nenhuma base, então, definitivamente, não sou
santa.
Claro, tenho o compromisso de progredir sempre, de aprender com meus
erros, de fazer de mim mesma uma pessoa melhor, mais humana, mais
responsável e mais digna, mas, absolutamente, não estou sequer na metade
desse processo. Então, deixemos os extremos, as fantasias e os
preconceitos e cheguemos aos fatos. Eu sou cega. E humana. Um fato não
exlui o outro. Eles apenas se completam.
Do mesmo modo que existem humanos idiotas, humanos geniais, humanos
cadeirantes, humanos medíocres, humanos sentimentais, humanos
"umbigocÊntricos", existem humanos cegos - que podem, ou não, serem todas
essas coisas apontadas logo ali. Mas o essencial que preciso expressar,
é que a cegueira não traz, nem a incapacidade absoluta, nem a santidade
instantânea, nem a burrice extrema, nem nada disso. É simplesmente uma
característica, uma limitação que pode ou não ter um caráter realmente
limitante. A cegueira é o que o cego faz dela. Nós ainda temos escolha.
Temos harbítrio. Temos a chance de sair de nós mesmos e ir além de
falta de visão; do mesmo modo, podemos nos enterrar em nossos problemas
e lamentar o nosso nascimento, as mazelas sociais e a existência de
Deus, como qualquer pessoa normal.

Bem-vindos ao "Diário de uma cega""

domingo, 11 de julho de 2010

Batata frita

O desconhecido dá medo. Por algum motivo, a falta de visão pode tornar o desconhecido ainda mais apavorante.
A idéia veio na sexta. Queria comer batata frita no fim de semana. Havia dois pontos delicados: eu nunca fizera batata frita e morria de medo de tentar. Havia, porém, outros pontos, bastante persuasivos: eu euria cozinhar para meus filhos. Pelo menos essa passou a ser uma meta desde que uma empregada nos deixou na mão e eu tive que pedir almoço
Para meu filho na vizinhança. O último motivo abrabge a péssima qualidade das marmitas.
Tirei as minhas dúvidas, quanto tempo até a gordura esquentar e quanto tempo com a batata lá dentro.
Na hora de colocar, veio frio na mão: medo de me queimar. Por isso abandonei a parte superior e toda furadinha da panela fritadeira e fui colocando com a mão mesmo.
Depois o desafio foi pescar o resultado com a escumadeira. Ficou gostosa, mas da próxima vez quero usar a fritadeira e sujar menos o fogão. A propósito, não me queimei.

Gostaria de ter aprendido isso antes. Gostaria de ter recebido algum incentivo além da reafirmação do que poderia ter dado errado.
Contudo, a duras penas estou aprendendo a não me lamentar, apenas fazer a minha parte. Hoje vou assar minipizzas para a noite. Muito menos emocionante, mas alguém está servido?
Algum cego leitor tem histórias pessoais ou dicas sobre lidar com frituras?

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